Como é difícil cuidar, definir o cuidar e inigualáveis são os atos do cuidador.
Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro (Boff 2000).
De acordo Boff (2000) o cuidado pode ser definido como um modo-de-ser essencial, sempre presente. É uma maneira de o próprio ser de estruturar-se e dar-se a conhecer. Sem o cuidado, ele deixa de ser humano.
Quando conseguimos visualizar uma pessoa que praticamente nunca foi cuidada, nasceu e viveu sempre “na rua”, sem referências básicas da essência humana. “Não é cuidado e nunca vai cuidar”. Esta pessoa vai morrer nos amplos sentidos, tanto faz ser morto ou matar. Não existe diferença para ela. Esta morte é definida como falta de cuidado – O ser humano é um ser de cuidado, mais ainda, sua essência se encontra no cuidado. E a essência humana se define e se compõe pelas mitologias, ciências, filosofias e religiões (Boff, 2000).
Segundo Boff (2000) “temos de pensar e falar a partir do cuidado como é vivido e se estruturar em nós mesmos”.
Para sabermos cuidar, devemos primeiro estruturar o nosso cuidado. “Eu me cuido?” – Realizo e/ou procuro realizar meus desejos? Ou somente “presto cuidados”? Se for apenas um simples cuidador, sem nenhuma essência e mito, como definir cuidados a um paciente oncológico?
O cuidado define-se como essência. Podemos visualizar três termos tão presentes no diagnóstico (médico) oncológico que estão interligados com a essência do cuidar.
- Câncer...
- Tumor maligno...
- Tumor benigno...
Diagnósticos ditos entre “sussurros”, que nos circundam diariamente, seja no âmbito profissional ou pessoal. Em algum momento de nossas vidas já deparáramos com uma dessas falas “Sr. José está com câncer... coitado... não tem mais jeito... o tumor é maligno...”, “Dona Maria tem um tumor, mas ainda bem que é benigno...”
Como podemos definir esses conceitos tão profundamente enraizados no nosso cotidiano.
Segundo o dicionário Aurélio da Nossa Língua Portuguesa:
A) Câncer: Vem do Latim Câncer, cancri. É qualquer proliferação celular anárquica incontrolável e incessante, que geralmente invade os tecidos com capacidade de gerar metásteses em várias partes do corpo e que tende a reaparecer após tentativa de retirada cirúrgica.
B) Tumor maligno: Vem do latim Malignus. Como adjetivo tem os seguintes significados: - má, mau em sua natureza e índole, mal-intencionado, desgraça, fatal, funesto. Ainda como adjetivo, dentro do conceito biológico ocorre na forma grave e tende a levar a morte.
C) Tumor benigno: Vem do latim Benignus. Como adjetivo significa ter uma boa índole, ser benévolo, ter bom caráter, ser humano, bondoso, cortês, prestativo e generoso. E dentro do conceito biológico:- sem gravidade.
Pode-se fazer um elo entre os três conceitos:
TUMOR
(LATIM) Benignus (cura)
Crescimento lento, não produz metásteses ELO CENTRAL SE RAMIFICA
METÁSTESES Malignus (câncer – morte)
Crescimento mórbido produz metásteses
METÁSTESES
Vem do Grego - METÁSTASIS(deslocamento, afastamento).
É um substantivo feminino – migração por via sanguínea ou linfática deprodutos patológicos provenientes de uma lesão inicial. Se aprofundarmos teríamos de falar em gênero homem e mulher – palavra feminina e tão maquiavélica.
Ao analisarmos os conceitos citados. Como podermos cuidar de uma pessoa com câncer / tumor maligno?
Se o cuidado é desvelo que se dedica a alguém. Vem do latim Cogitátus (pensado, refletido).
E quem tem câncer, tem o “o diabo” – Como podemos ser cuidadores do “diabo” incorporado?
Câncer é uma doença crônica – degenerativa, apresenta evolução prolongada e progressiva (Merighu 2005). Com a evolução científica e tecnológica o perfil da doença se manteve, mas o local que o cuidado é prestado mudou radicalmente. Antigamente os prestadores do cuidado (os cuidadores) eram os familiares e amigos, que proporcionavam um ambiente de interação e afetividade. Hoje com a nossa nova cultura “hospitalizá-se,” as pessoas e elas morrem sozinhas num ambiente frio e asséptico (hospitais) e com estranhos prestando “o cuidado” (técnicos da área de saúde).
A morte constitui o aposto da vida. Por isso, torna-se um fenômeno aterrorizante, repulsivo e desconhecido para nossa espécie, que exulta instintivamente a vida. Dor e medo são sentimentos predominantes nesta relação com a morte (Ballone 2005).
O câncer é percebido ainda hoje como uma condenação, como um castigo merecido ou não – estando ainda, fortemente associado à idéia de morte (Seguim 1999).
Por isto na nossa sociedade precisamos vencer sempre a morte e através das instituições de saúde – representada pela equipe multidisciplinar – pregamos a nossa onipotência frente às doenças “malignas.” A pessoa deve ser hospitalizada e tratada e o quê ela quer fica em segundo plano. É um acaso. Profissionais como definidores de todo o conhecimento – o indivíduo não pode definir por quem será e onde será cuidado.
Sendo assim os profissionais de saúde deveriam pensar no efeito humanizador que se concretizaria se estivessem mais próximos de seus doentes ao longo de todo tratamento. A efetividade da relação profissional/usuário possibilitaria a ambos rever conflitos, trocar experiências (Gambato, Carli, Guarnenti e Prado 2005, p.5).
Quando o cuidar constitui a falência do tratamento, o caminhar para a morte vai requer que o profissional esteja preparado para perceber o desejo de cada indivíduo, que ele é único e definidor de toda a sua essência e que este cuidado pode proporcionar-lhe uma qualidade de vida e não um aumento apenas dos dias vividos.
Temos citado constantemente o termo “qualidade de vida”, sendo esta expressão introduzida há mais de 50 anos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e definida na época como “Estado de completo bem estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade.
Segundo Calman, citado por Brites a qualidade de vida em pacientes com câncer, define esse parâmetro como uma congruência entre sonhos, ambições, projetos de vida, esperanças para o futuro, estilo de vida atual e experiência pessoais.
Se unirmos o cuidar – “Que é toda a essência do ser” – com a qualidade de vida do indivíduo – “Seus desejos e sonhos” – podemos nos tornar “cuidadores” – desta maneira em essência do ser integral como mente e corpo.
Como pessoas, trabalhadores da área de saúde, devemos primeiramente ser cuidados antes de tornar um cuidador. Devemos tentar conseguir gerenciar nossas limitações e dificuldades, lembrando sempre que poderemos sanar algumas e outras não- “Somos seres em essência atrás dos sonhos, tentando acertar e aprender com erros, os quais nos fundamentam em afetividade e zelo por nós mesmos e pelo outro.”
Bibliografia:
1 - BALLONE, GJ. (2000). Lidando com a Morte. Disponível em: